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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Ainda vale a pena ler "A Imitação de Cristo"?


O livro "A Imitação de Cristo" foi um dos mais traduzidos no mundo. Alguns dizem que entre os livros religiosos, depois da Bíblia, ele foi o mais traduzido. Escrito antes da invenção da imprensa, é de surpreender que milhares de cópias estavam espalhadas pelas bibliotecas da Europa.

Apesar de sua popularidade, não se tinha conhecimento de quem o escrevera, de seu autor. Não é de se admirar, pois no Capítulo II lê-se: "estima ser ignorado e tido em nenhuma conta" ou no original em latim: "ama nesciri et pro nihilo reputari". O Capítulo V adverte os leitores a não procurar quem disse, mas a prestarem atenção ao que foi dito: "non quaeras quis hoc dixerit: sed quid dicatur attende", ou seja, não importa quem escreveu "A Imitação de Cristo", mas tão somente a sua mensagem.

Todavia, como a pergunta é se ainda vale a pena lê-lo, saber quem o escreveu pode ser de alguma valia. Conforme os estudos dão conta, foi escrito pelo padre Thomas Hemerken, nascido na cidade alemã de Kempen que, ao ser colocada na forma latina torna-se Kempis, assim diz-se que o livro foi escrito por "Thomas de Kempis".

Kempen ou Kempis estava localizada na região da fronteira com a Bélgica e a Alemanha atuais, na área de cultura conhecida como flamenga, ou seja, holandesa. Naquela área surgiu o movimento denominado devotio moderna para contrapor a devotio antiqua em voga. A devotio antiqua era praticada por um clero decadente, o qual não punha mais o próprio coração nas celebrações litúrgicas e nas práticas devocionais. Lembrando que se trata do século XV, pouco antes da Revolução Protestante. Além disso, apresentava uma mística intelectualizada, mais preocupada com questões abstratas que com as dificuldades cotidianas. Ela era praticada sobretudo na região do Rio Reno e seu representante mais ilustre foi o dominicano Mestre Eckhart, mais tarde acusado como herege e que teve parte de seus escritos condenados. Por fim, ela apresentava uma ascese inalcançável. As pessoas se propunham penitências dificílimas, iam em busca de heroísmo ascéticos tão terríveis que se tornava impossível cumpri-las.

Nesse cenário, surgiu a devotio moderna propondo que sacerdotes e religiosos empenhassem o coração no culto a Deus, saindo do automatismo. Para fugir da intelectualidade exacerbada, centralizaram a devoção em Cristo. Ela rapidamente se tornou popular, pois, além de cristocêntrica, oferecia a todos práticas de penitência e de mortificação mais acessíveis.

Assim, Thomas de Kempis encontrou campo fértil para escrever a belíssima obra "A Imitação de Cristo" que traz orientações práticas para a vida do fiel. O livro é divido em capítulos (ou fichas) independentes, ou seja, cada um possui começo, meio e fim, portanto, pode ser lido de modo autônomo. Isso justifica o tradicional costume de se fazer uma oração e abrir o livro aleatoriamente. Sua característica é colocar o fiel em contato com Cristo, ajudando-o em seu processo de conversão, o qual exige uma ruptura com o mundo. Justamente nesse ponto a obra é criticada, pois a separação do mundo que ele sugere faz com que seja tachado de individualista, ou seja, com uma espiritualidade desencarnada, fora do mundo real.

No entanto, é possível superar esse obstáculo, esse efeito colateral de tão excelente remédio, recordando que o livro foi escrito para monges, ou seja, pessoas que já viviam apartadas do mundo. Para tanto, basta adaptá-lo ao dia a dia. Apesar disso, não deixa de ser um livro de extraordinária importância, posto que nesses tempos atuais em que muitos na própria Igreja abraça a mentalidade mundana, "A Imitação de Cristo" coloca as coisas em perspectiva cristocêntrica. A centralidade em Nosso Senhor Jesus Cristo, a ruptura com o mundo e com o pecado, numa espiritualidade que engaja a pessoa pelo coração e faz com que viva para o que realmente importa: o Céu.

No Brasil, existem várias edições disponíveis, inclusive na internet. A Editora Paulus possui uma excelente tradução da obra, num português bastante refinado e requintado, feita pelo Padre Cabral. Depois de cada capítulo, breves reflexões acerca daquele conteúdo, escritas por um padre francês. Contudo, para quem tem dificuldade com o português talvez não seja a edição mais indicada. Uma versão mais fácil e tão fiel quanto pode escolher a edição da Editora Paulinas, cuja tradução foi feita por Francisco Catão, o qual conseguiu adaptar o texto para para uma linguagem mais corrente. Finalmente, a edição da Vozes que traz além de um português requintado, comentários de São Francisco de Sales. Ela é interessante pois coloca em língua portuguesa, um trabalho feito em 1989, por um padre francês que, ao estudar a obra daquele grande santo, relacionou-as aos temas abordados em "A Imitação de Cristo".

O livro está dividido em quatro grandes seções, sendo as duas primeiras introdução do leitor à vida espiritual. A terceira parte é um diálogo entre Cristo e a alma. Trata-se da parte devocional, meditativa. A quarta parte refere-se à Eucaristia, ensinando como recebê-la, adorá-la e a como aproximar-se dela de maneira adequada.

"A Imitação de Cristo" deveria ser o livro de cabeceira de todo católico. Trata-se de uma espiritualidade válida, especialmente nesse tempo em que a Igreja, em vez de ser missionária e evangelizar o mundo, está sendo justamente "evangelizada" por ele. "A Imitação de Cristo" poderá, sem dúvida, ajudar a impedir a mundanização da Igreja e de cada um.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Aos Porcos a Pocilga:

Quando cada pessoa boa hoje é martirizada sem nunca perder a graça,está bem próxima do Altíssimo.Quem reza,evangelisa e alerta que estamos no Fim dos Fins,torna-se numa pequena
ilha,tal como Israel,e mesmo diante  de ondas altíssimas estas ilhotas da salvação nunca submergem
realmente,pois o Senhor Deus É com elas e elas São com Ele.Ái daqueles que molestarem quem for de
Deus verdadeiramente.Hoje,sobretudo,busquemos vida simples.Abandonemos de imediato o conforto,o luxo,os prazeres da vida,o  amor ao dinheiro,ao status,à fama.Nosso único conforto
deve ser a conversão sincera e diária,seguida de sacrifícios,caridade e pobresa voluntária.NISTO,
BASICAMENTE,CONSISTE NOSSA SALVAÇÂO.Altruísmo é se colocar no sofrimento do
pròximo,dele fazendo parte e buscando solução à luz do Evangelho.A caridade sem coração é nula.
Caridade sem justiça é esquecer o pecado.Deixemos a pocilga para os porcos

domingo, 19 de julho de 2015

Inversão de valores num muno materialista.

No seu livro “O discurso dos sons” (Musik als Klangrede), que foi muito bem traduzido para o português pelo cravista Marcelo Fagerlande e publicado pela editora Zahar, o grande maestro e instrumentista alemão Nikolaus Harnoncourt nos chama a atenção para a função secundária que a arte musical séria ocupa nos dias de hoje. Uma frase de seu livro: “Hoje a música se tornou apenas um simples ornamento, que permite preencher noites vazias ao se ir a um concerto ou a uma ópera, organizar festividades públicas ou, em sua casa, através de aparelhos de som, espantar ou mobiliar o silencio criado pela solidão”. Diz ele que há um paradoxo no fato de ouvirmos muito mais música hoje do que antes, mas que esta música não é mais do que um enfeite. Estes pensamentos do maestro alemão não atingem apenas uma parte do mundo, mas sim a totalidade da nossa civilização ocidental. O que poderia fazer com que a música em particular e a arte em geral adquirissem um significado mais marcante em nossas vidas? Um bom início é reconhecermos como a nossa existência está se tornando cada vez mais materialista, como não damos importância à vida, e como prezamos pouco fazer a arte e a cultura se tornarem um instrumento de transformação. Há mais algumas frases de Harnoncourt que devo citar: “Não são mais os valores já respeitados nos séculos passados que nos parecem importantes. Eles (os homens do passado) consagravam todas as suas forças, seus sofrimentos e suas paixões para construir templos e catedrais, em lugar de lhes dedicar este tempo a máquinas e a seu conforto. O homem de nossos tempos dá mais valor a um automóvel ou a um avião do que a um violino, mais valor ao esquema de um aparelho eletrônico do que a uma sinfonia… sem refletir rejeitamos a intensidade da vida pela sedução vazia do conforto.” Estas sábias frases de Harnoncourt me soam ainda mais contundentes quando percebo que muitos músicos transformam sua carreira numa irrefreável corrida à fortuna financeira e a uma vaidade sem limites. Não estaríamos corrompendo a verdadeira função da música e da arte?

Ao citar o quanto admiramos máquinas fico impressionado com a quantidade de comerciais de automóveis na televisão brasileira. Para que serve um automóvel? Para nos levar de um lado para outro. Apenas isso. Valoriza-lo da maneira como se vê é dar uma preponderância a algo que não merece e é tirarmos espaço do que realmente importa. Não quero impingir a ninguém os meus valores, mas creio que falar um pouco deles não faz mal algum. Uma obra de arte seja ela uma Pintura, uma Sinfonia ou um Romance podem servir para múltiplas coisas, algo que se aproxima daquilo que pode nos aproximar de uma “iluminação”. Não há comparação com algo que estará “fora de moda” em alguns anos, que poderá ser destruído num acidente ou roubado. Nossa imprensa, e nossa vida em geral é um retrato de nós mesmos. Nós permitimos, e refletimos pouco a respeito, que atletas com nível de inteligência bem baixo ocupem enormes espaços de jornais e de televisões, que sejam supervalorizados e muitíssimo bem pagos, em detrimento a algo que seja realmente vital para nosso crescimento espiritual. Não poodemos ver isso com naturalidade.

npr.org
Stravinsky. Seu comentário às “excrescências vãs” é antológico
Citando agora outro grande músico, o compositor russo Igor Stravinsky (1882-1971), numa de suas conversas com o maestro Robert Craft, ele fala do vazio que uma carreira musical pode ter se ela não leva a nenhum progresso espiritual. Suas palavras parecem expressar claramente o que eu penso: “Tenho uma fotografia na minha parede de Alban Berg e Anton Webern juntos”(compositores austríacos falecidos respectivamente em 1935 e 1945). (…) “Quando olho esta foto, não posso deixar de me lembrar de que, tão pouco tempo depois, ambos tiveram morte trágica e prematura, depois de anos de pobreza, abandono musical e finalmente banimento do meio musical de seu próprio país”. (…) “Comparo o destino destes homens que nada exigiram do mundo e que fizeram a música por meio da qual a primeira metade deste século (ele fala do século XX) será lembrada, e comparo com as “carreiras” de regentes, pianistas, violinistas – todas excrescências vãs. Então, essa fotografia de dois grandes músicos, dois espíritos puros, honestos seres humanos (“ehrliche Menschen” no original) me restitui o senso da justiça no mais profundo nível”. O meio musical está cheio do que Stravinsky chamou de “excrescências vãs”. O ponto de contato entre o que fala Nikolaus Harnoncourt e o que observou Stravinsky é que estamos desorientados, valorizamos inutilidades e estamos a todo o momento esquecendo que a arte pode transformar nossas vidas. Fico descrente vendo tanta coisa que julgo errada, e para mim supervalorizar um carro e dar espaço para as falas “troglodíticas” de um atleta pouco inteligente é tão indigno como tornar a arte um instrumento para auferir fortuna e fama. Comparo nosso mundo, e nosso meio, aos mercadores em meio ao templo. O que é mais sagrado acaba sendo desrespeitado. Temos que lutar contra isso!!!